A consciência da verdade e o senso crítico

               




Desde o nascimento até a fase do desenvolvimento físico e cognitivo, a convivência com os pais, ou aqueles que representarão a figura parental acontecerá em quase todo o tempo. Tal convivência será de suma importância no início de percepção da realidade e de julgamentos de valor.

Utilizando a teoria da Tábula Rasa de  Aristóteles, que deduz que todo ser humano nasce vazio de tudo, e se constrói através de interações, John Locke (1632-1704), que se utiliza essencialmente do empirismo, escreveu o livro "Ensaio Acerca do Entendimento Humano" (1690), no qual argumenta que todo o processo do conhecimento humano é adquirido através de experiências. Tal teoria também fundamenta o behaviorismo clássico, que investiga os processos comportamentais ao condicionamento clássico.

Tomando como parâmetro tal teoria, desenvolvemos a consciência de que não herdamos geneticamente juízos de valor, como racismo, xenofobia e intolerância religiosa, por exemplo. Tudo se torna uma questão de absorção deliberada de ideias, que quanto mais forem reforçadas, maior a dificuldade de se aplicar o senso crítico nelas, quando este já está em plenas condições.

À medida em que assimilamos informações, não estamos acostumados a refletir sobre o que é certo ou errado, o que faz sentido ou não para a nossa existência. Quantas vezes já nos apanhamos repetindo padrões de comportamento sem o mínimo questionamento? Repetimos até as mesmas palavras que nossos progenitores, amigos, pessoas que admiramos, aceitando-as como verdade absoluta e imutável. O grande problema de não estimular desde a infância o  pensamento crítico, de questionamento constante, é que ele é a porta para a passividade, e o indivíduo aceitará  tudo o que lhe for imposto, sem motivos para conhecer novas ideias, colectar novas informações, e desenvolver sua própria linha de raciocínio, se transformando em candidato perfeito à manipulação.

Aliando tais questões ao fato do ser humano ser mutável, mas não se afeiçoar  da ideia de mudança, crises existenciais intermináveis poderão surgir,  quando o indivíduo se vê diante de conceitos que fazem sentido, e que brigam com tudo o que esteve arraigado em sua mente, que até então era aceito como verdade eterna.

Ao tomar poder sobre os pensamentos, a racionalização é uma grande ajuda, por auxiliar na separação de cada pensamento, análise de sua qualidade, e medição de importância de cada um. Reflectir sobre a sua própria realidade, e como ela restringe a oportunidade de se colocar em meio às pessoas e opiniões diferentes é também um auxílio. Finalmente, não podemos nos esquecer de que não somos esponjas que tudo absorvem, devemos ter o debate de ideias como acção frequente, para que sempre estejamos em questionamento, o que nos tira do marasmo, nos põe em combate contra a manipulação, e nos torna seres humanos melhores.

in Filosofia da Depressão

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